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Mão de criança e tronco de árvore

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Textos e notícias pedagógicas

A infância pertence à natureza

Por Giovana H.



Onde a infância cria raízes?


Há algo profundamente significativo na forma como as crianças se relacionam com a natureza. Antes mesmo de compreenderem seus ciclos, de nomearem espécies ou de aprenderem sobre preservação ambiental, elas exploram a terra com as mãos, observam o voo dos pássaros, colecionam folhas, gravetos e sementes, encantam-se com pequenos insetos e transformam cada elemento natural em possibilidade de pesquisa e descoberta. Esse movimento espontâneo de aproximação revela que a relação entre infância e natureza faz parte da própria condição humana. É nesse contexto que emerge o conceito de biofilia, compreendido por Edward O. Wilson (1984) como a tendência inata dos seres humanos de estabelecer vínculos afetivos com outras formas de vida. Não se trata de um interesse passageiro, mas da expressão de uma disposição profundamente humana para criar laços com o mundo vivo.


Mais do que apreciar a natureza, a biofilia revela nossa necessidade de fazer parte dela. Na infância, essa ligação ganha contornos ainda mais significativos, pois é nesse período que se estruturam os afetos, a sensibilidade, a curiosidade e as primeiras formas de compreender o mundo. Como afirma a educadora ambientalista, Lea Tiriba (2024, p. 3), "as crianças necessitam, antes de tudo, sentirem-se pertencentes a um território. Sem isso, elas ferem a sua natureza biofílica, desconectam-se, alienam-se de si e da Terra...". Reconhecer essa condição significa compreender que educar é, também, cultivar e fortalecer o vínculo primordial que une a criança ao mundo natural, oferecendo experiências que alimentem um sentimento de vínculo e sua relação de cuidado com todas as formas de vida.


Ao trazer a biofilia para o campo da educação, reafirmamos que o desenvolvimento da criança não acontece separado do ambiente em que vive, mas em constante diálogo com ele. A natureza deixa de ocupar o lugar de simples cenário e passa a ser reconhecida como uma presença viva, capaz de despertar fascínio, provocar perguntas, ampliar investigações e alimentar a imaginação. Cultivar a biofilia significa, portanto, criar condições para que as crianças experimentem o mundo natural com tempo, autonomia, liberdade e continuidade, fortalecendo uma relação ética, sensível e afetiva com a Terra.


Essa compreensão aproxima-se da teoria histórico-cultural de Vygotski (2010), para quem o desenvolvimento acontece na relação entre a criança e o ambiente que vivencia. Não é o espaço, por si só, que promove aprendizagens, mas a maneira como a criança atribui significado às experiências nele vividas. Por isso, embora a biofilia seja uma disposição inata, sua expressão pode ser fortalecida ou enfraquecida pelas condições socioculturais em que a infância se desenvolve. Quando proporcionamos às crianças ambientes ricos em elementos naturais, tempos de exploração, liberdade para investigar e oportunidades de convivência com a natureza, criamos condições para vivências que fortalecem o sentimento de pertencimento e ampliam as possibilidades de desenvolvimento integral.


Promover a biofilia na Educação Infantil é reconhecer que a formação humana também acontece pelo encontro sensível com o mundo natural. Mais do que ensinar conceitos sobre meio ambiente ou sustentabilidade, trata-se de criar contextos em que as crianças possam sentir-se pertencentes à natureza, reconhecendo-se como parte dela e estabelecendo relações de respeito, cuidado e admiração por todas as formas de vida. Como lembra David Sobel (1996, p. 39), "dê às crianças a chance de amar a Terra, antes de pedir que elas a salvem". Afinal, educar para a biofilia é cultivar, desde os primeiros anos, uma maneira de habitar o mundo pautada pelo encantamento, pelo pertencimento e pela responsabilidade compartilhada com a vida. É compreender que, quando a escola cria espaços que aproximam as crianças da natureza, não está apenas ampliando oportunidades de aprendizagem, mas fortalecendo um vínculo essencial para o desenvolvimento humano e para a construção de uma relação mais ética, responsável e sensível com a Terra.



Referências:

  • KELLERT, Stephen R.; WILSON, Edward O. (org.). The Biophilia Hypothesis. Washington, DC: Island Press, 1993. 

  • TIRIBA, Léa. Prefácio. MORO, Catarina; MANFREDINI, Ana Luisa. Natureza, estética e educação infantil: desafio e desejo. Curitiba: NEPIE/UFPR, 2024, p. 1-5. 

  • VIGOTSKI, Lev S. Quarta aula: a questão do meio na pedologia. Psicologia USP, São Paulo, v. 21, n. 4, p. 681–701, 2010. Tradução: Márcia Pileggi Vinha; revisão técnica: Max Welcman. DOI: 10.1590/S0103-65642010000400003



 
 
 

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