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Mão de criança e tronco de árvore

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Textos e notícias pedagógicas

Do acolhimento às flores: quando a infância encontra lugar.

Por Evelyn Souza



O que acontece quando uma criança habita a escola pela primeira vez?


A palavra acolhimento aparece com frequência nesses contextos, mas o que, de fato, significa acolher? Que sentidos, camadas e nuances estão em jogo quando usamos esse termo?


Acolher é receber o mundo interno da criança. Suas hipóteses sobre o mundo, suas expectativas, seus medos, suas inseguranças, suas formas próprias de compreender e habitar os espaços. É reconhecer que cada criança chega carregando uma história, vínculos, memórias, gestos, silêncios e modos singulares de existir e de se relacionar. É oferecer um quintal para si que se abre para encontrar um mundo inteiro de possibilidades. A criança reconhece-se como pertencente quando encontra adultos que lhe dizem, em gestos e palavras: “Você é importante aqui.”


Por isso, para nós, é fundamental chamar cada criança pelo nome, reconhecê-la. Oferecer colo ou abaixar-se à sua altura, olhar nos olhos, convidar para brincar, adentrar em seu mundo e conhecer seus interesses. Cuidar também é uma questão ética, política e social. Assim, o acolhimento se constrói nas relações que sustentam e dão significado à vida cotidiana. O cuidado é, em si, a própria ação educativa.


Acolher também é preparar os ambientes. É pensar nos tempos, nos materiais, nos móveis, nos objetos, nas luzes, nos sons, nos cheiros. É organizar o espaço como quem prepara um encontro — e não apenas um lugar físico. É criar condições para que relações possam surgir, para que vínculos possam nascer, para que a criança possa se sentir pertencente, segura e curiosa para explorar.


Nesse processo, o papel do adulto e do professor não é apenas “estar ao lado”. É estar atento. Presente. Sensível. O trabalho pedagógico nasce da atenção dedicada às condições da experiência que se oferece às crianças: o ritmo do dia, o modo de chegar, o tom da voz, os gestos, as pausas, os silêncios, os convites, os limites, os cuidados. É na delicadeza desses detalhes que se constrói a confiança.


Como nos lembra o Diário do acolhimento na escola da infância, “tornar concreto e cotidiano o princípio de que a criança é sujeito de direitos e que tem direito ao respeito e ao reconhecimento das suas exigências (explícitas e implícitas) é uma tarefa complexa. O respeito é uma escolha que deve se estender ao contexto (a família, o ambiente) no qual a criança vive. A tarefa é ainda mais desafiadora quando o adulto decide realmente acolher as crianças de modo personalizado e levar em conta as suas emoções e as de seus familiares durante o período de ambientação e depois dele”.


O tempo da separação é pessoal, íntimo e singular. Cada criança vive esse momento de forma diferente — e é justamente por isso que ele não pode ser apressado, padronizado ou comparado. Há quem chegue explorando, há quem precise de colo, há quem observe em silêncio, há quem chore, há quem sorria. Todos esses modos são legítimos e merecem ser respeitados, acolhidos e compreendidos.


A família precisa — e merece — estar junto nesse processo. Quando encontra espaço para o diálogo, sente-se mais segura ao deixar seu bem mais precioso na escola. Essa parceria começa no momento de familiarização e se fortalece no cotidiano, a cada encontro, a cada troca, a cada confiança construída.


As crianças também chegam com objetos de casa: materiais afetivos que lhes permitem trazer um sentido de continuidade e de segurança aos seus dias na escola. Elementos que carregam cheiro, memória, vínculo, história. Esses objetos funcionam como pontes entre o lar e a escola, entre o conhecido e o novo, entre o dentro e o fora — oferecendo estabilidade, pertencimento e aconchego.


No ano passado, durante os processos de familiarização e re-familiarização, o vínculo com as professoras e com o espaço se fortaleceu por meio de passeios diários pela escola. Esse percurso, inicialmente individual, logo se tornou um ritual de chegada e um convite aos colegas: “Vamos passear na Casa dos Bebês?”, “Quem quer procurar flores?” e “Vamos dar uma volta pela escola?”


Foi nas caminhadas pelo quintal, nas coletas espontâneas de flores e nas conversas entre as crianças que surgiram os primeiros sinais de um desejo investigativo. Um despertar sensível, silencioso e potente, que se revelava nas perguntas, nos gestos e nas escolhas do grupo. Quando percebemos, as crianças já estavam profundamente encantadas com a possibilidade de coletar flores e, inicialmente, presentear suas famílias ao final do dia.


Aos poucos, esse movimento se transformou na grande pesquisa do grupo. As crianças passaram a percorrer a escola com olhos atentos e mãos curiosas, coletando flores e descobrindo os lugares onde cada uma escolhe nascer. Como nos ensina Monica Guerra, “cada momento, objeto e lugar contém elementos de potencial significatividade para as investigações exploratórias de quem se coloca na escuta e na relação com os outros, com as coisas, com o mundo” (GUERRA, 2024).


Nesse movimento de observar, colher e nomear, as crianças foram tecendo vínculos com os territórios da escola e manifestando que o pertencimento também floresce a partir das investigações e encantamentos com o mundo. Assim nasceram nossas topoflorias — um diálogo sensível com o conceito de topofilia: o amor pelos lugares e o fascínio pelas flores que habitam cada canto da escola.


Acolher, portanto, não é um gesto único.


É um processo.


É dar espaço e tempo para que as histórias de todas as crianças possam se desenvolver com calma, respeito e escuta.


É permitir que cada uma encontre seu ritmo, seu lugar, sua forma de estar, seu modo de florescer.




 
 
 

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